Mercado Livre de Energia no 1T26: Por Que as Migrações Caíram 36,5% Enquanto o PLD Subiu 84%

O primeiro trimestre de 2026 marcou o fim do ciclo de migração fácil para o mercado livre. Os números de novos contratos caíram 36,5% em relação ao ano anterior — mas o que parece um recuo é, na verdade, a consolidação de um cenário novo: PLD elevado, hidrologia desfavorável no Sul e reajustes pesados nas distribuidoras pressionando empresas a repensar a estratégia de contratação.

Até 2025, a equação era simples: PLD próximo do piso regulatório, tarifas de distribuidoras subindo e processo de migração com payback rápido. Esse ciclo terminou. O PLD médio passou de R$ 129/MWh em 2024 para mais de R$ 300/MWh em 2026 — uma alta de 84%. Em fevereiro e março, o preço horário do mercado de curto prazo encostou no teto regulatório de R$ 1.611,04/MWh.

Quem migrou em 2025 sem estrutura adequada de contratação sentiu o impacto na exposição involuntária. Quem ficou no cativo enfrentou, em abril/26, reajustes que chegaram a 19,84% em algumas distribuidoras. A janela de decisões baratas se fechou, e o trimestre escancarou o novo cenário do mercado livre de energia: as escolhas são mais caras, mais técnicas e mais estratégicas.

Nesta análise, a Partner Energy detalha os quatro vetores que definiram o 1T26 — volume de migrações, comportamento do PLD, nível de armazenamento dos reservatórios e reajustes tarifários — e mostra como o cronograma da Lei 15.269/2025 reorganiza as decisões para os próximos 24 meses.

Os Quatro Números do Trimestre

Queda nas migrações

-36,5%

De 7.630 para 4.827 novos contratos no comparativo 1T25 vs 1T26.

PLD desde 2024

+84%

Média histórica passou de R$ 129/MWh para mais de R$ 300/MWh.

Modelo varejista

70%

Das novas migrações usaram o modelo simplificado da CCEE.

UCs com reajuste

22 mi

Unidades consumidoras atingidas pelos reajustes da ANEEL em abril/26.

Fontes: CCEE, ONS, ANEEL, Abraceel · Dados consolidados até 11 de maio de 2026.

1. O Volume Caiu, Mas o Movimento Mudou de Forma

Comparar 1T24 (3.120 novos contratos), 1T25 (7.630) e 1T26 (4.827) não é o mesmo que comparar três trimestres equivalentes. O salto de 2024 para 2025 refletiu a abertura para consumidores acima de 500 kW e o ambiente de PLD baixo. O recuo de 2026 mostra que o filtro do mercado mudou: agora ele exige que o consumidor entre com proteção adequada — e isso aumentou o tempo médio de decisão.

Quem migrou ao longo de 2025 com contratos curtos ou exposição parcial ao mercado de curto prazo enfrentou meses pesados em fevereiro e março de 2026. A reação do mercado foi natural: as empresas passaram a estruturar melhor antes de migrar, e a entrada deixou de ser uma decisão tática para se tornar uma decisão estratégica.

Volume de novas migrações ao ACL — comparativo 1T24 · 1T25 · 1T26

Novos contratos formalizados no Ambiente de Contratação Livre · Fonte: CCEE

3.120

7.630

4.827

1T241T251T26

O dado importante não é o volume absoluto — é o perfil de quem migrou. Em 1T26, 70% das novas migrações usaram o modelo varejista, formato simplificado em que a comercializadora assume todas as obrigações regulatórias junto à CCEE. Esse mecanismo permitiu que hospitais, redes de varejo, supermercados e empresas de médio porte entrassem no ACL sem precisar montar estrutura interna de gestão. Voltamos a isso na seção 5.

2. PLD: A Volatilidade Que Redefiniu o Risco

O preço de liquidação das diferenças (PLD) é o termômetro mais visível do mercado livre. Em 2026, ele saiu do regime de piso e passou a operar com volatilidade severa. A combinação de afluências abaixo da média histórica no Sul e necessidade crescente de despacho térmico levou os picos horários ao teto regulatório.

PLD mensal Submercado Sudeste/CO — Jan a Mai/2026

Valores em R$/MWh · Fonte: CCEE · PLDmax regulatório 2026: R$ 1.611,04/MWh

MêsMédiaMáximoMínimo
Janeiro/26R$ 247,36R$ 519,66R$ 57,31
Fevereiro/26R$ 382,41R$ 1.557,92 ⚠R$ 57,31
Março/26R$ 301,85R$ 1.611,04 ⚠R$ 57,31
Abril/26R$ 211,38R$ 1.217,65R$ 57,31
Maio/26 *R$ 251,45R$ 441,57R$ 57,31

* Dados parciais até 11/05/2026.

O ponto mais crítico do trimestre foi março/26, quando o PLD horário tocou o teto regulatório de R$ 1.611,04/MWh — situação extremamente rara e que só acontece em condições de estresse operativo agudo. Em fevereiro, o pico mensal de R$ 1.557,92/MWh representou aproximadamente 27 vezes o valor mínimo registrado no mesmo período (R$ 57,31/MWh).

Para empresas com contratos do tipo “PLD + spread” ou com sazonalização inadequada, esses picos transformaram o que parecia uma boa decisão financeira em uma exposição patrimonial significativa. A lição operacional do 1T26 é clara: migrar para o ACL sem cláusulas de proteção contra volatilidade deixou de ser viável.

PONTO CRÍTICO

O acionamento da bandeira tarifária amarela em maio/26 — a primeira do ano — foi o reflexo direto desse cenário no consumidor cativo. Quando o CMO/PLD pressiona o custo do sistema, a ANEEL aciona a bandeira para repassar parte desse aumento ao consumidor regulado.

3. O Lastro Físico Sob Pressão: Reservatórios em Maio/26

O preço da energia no Brasil começa nos reservatórios. A foto do nível de Energia Armazenada (EAR) ao final do trimestre mostra divisão regional clara — e é no Sul onde está o maior risco para o segundo semestre.

Energia Armazenada (EAR) por subsistema — maio/2026

Percentual da capacidade total dos reservatórios · Fonte: ONS

Nordeste
95,6%
Sudeste/CO
65,63%
Norte (projetado)
60,0%
Sul
41,55%

A Bacia do Iguaçu, que representa parte significativa da capacidade do Sul, opera sob pressão crítica. Em uma região onde a expansão de geração eólica não compensa integralmente o déficit hidrelétrico no curto prazo, o risco é alto: novos episódios de despacho térmico fora da ordem de mérito mantêm a pressão sobre o PLD.

No Sudeste/CO, a situação é de atenção. A usina de Emborcação, com nível abaixo de 62%, é um indicador importante — historicamente, quando ela cai abaixo de 60%, o sistema responde acionando termelétricas mais caras, o que se reflete no CMO e, em consequência, no PLD. O Nordeste, em contraste, fechou maio com São Francisco em excelente nível e baixa probabilidade de pressão regional no segundo semestre.

4. Os Reajustes da ANEEL: O Que o Cativo Não Conseguiu Evitar

Em abril/26, a ANEEL homologou os reajustes anuais das principais distribuidoras do país. Para consumidores de alta tensão — exatamente o perfil elegível ao mercado livre — os percentuais variaram de 5,85% a 19,84%. Mais de 22 milhões de unidades consumidoras foram diretamente afetadas.

Reajustes tarifários homologados pela ANEEL — abril/2026

Impacto sobre contratos de alta tensão · Fonte: ANEEL

CPFL Santa Cruz
19,84%
Energisa MS
12,39%
Energisa Sergipe
12,36%
CPFL Paulista
12,13%
Energisa MT
10,42%
Neoenergia Coelba
10,21%
Enel Ceará
9,61%

O ponto estratégico aqui é simples: a alta do PLD reduziu a atratividade imediata do ACL, mas não tornou o cativo mais barato. Os reajustes da TUSD e TUST, somados às bandeiras tarifárias e ao reajuste anual, mantiveram a curva de custo total do consumidor regulado em trajetória ascendente. Não há, no horizonte da ANEEL, indicação de inversão dessa tendência.

Para o consumidor de alta tensão, a equação fica assim: ficar no cativo significa aceitar reajustes anuais entre 10% e 20% e bandeiras adicionais nos meses críticos. Ir para o mercado livre sem estrutura significa expor o caixa a picos de PLD. O ponto de equilíbrio está no meio — em uma migração estruturada com proteção contratual adequada.

5. Modelo Varejista: Por Que 70% das Migrações Passaram Por Ele

Implementado pela CCEE em julho de 2025, o modelo varejista simplificou a porta de entrada do mercado livre. Em vez de o consumidor se tornar agente direto da CCEE — com toda a obrigação de medição, contabilização e liquidação que isso exige — a comercializadora assume todas as obrigações regulatórias em nome do cliente.

O efeito foi imediato: 70% das migrações do 1T26 ocorreram pelo modelo varejista. Para hospitais, redes de supermercados, escolas, edifícios comerciais e empresas industriais de médio porte, o ACL deixou de ser uma decisão que exigia montagem de estrutura interna e passou a ser uma negociação contratual direta com a comercializadora.

A distribuição geográfica das migrações no 1T26 mostra concentração no Sudeste e Sul, com Bahia liderando entre os estados do Nordeste:

EstadoUnidades migradas no 1T26
São Paulo1.311
Minas Gerais387
Rio Grande do Sul386
Santa Catarina370
Paraná351
Bahia 1º do Nordeste340

6. Lei 15.269/2025: O Cronograma Que Reorganiza Tudo

Sancionada em 2025, a Lei 15.269 definiu o cronograma da abertura total do mercado livre. Para empresas que estão avaliando o momento certo de migrar, esse cronograma é a referência mais importante dos próximos 24 meses:

  • Agora (2026) — Alta tensão totalmente aberta. O PLD elevado filtra entrantes que não estruturam contratos com proteção adequada.
  • Março/2027 — Abertura para baixa tensão comercial e industrial. Hospitais, redes de varejo, escolas e médias empresas ganham acesso pleno ao ACL.
  • Março/2028 — Abertura para o segmento residencial. O mercado livre atinge sua escala total no Brasil.
  • Junho/2028 em diante — Implementação plena da dupla contabilização (CCEE + setor regulado). Os preços passam a refletir com mais precisão a realidade física do sistema.

Para o consumidor de alta tensão que ainda está no cativo, o cálculo é direto: quanto mais cedo a empresa estruturar a migração, mais cedo elimina a exposição aos reajustes anuais das distribuidoras. Para quem já está no ACL, a próxima fronteira é a profissionalização da gestão de portfólio — não basta migrar; é preciso gerir a posição contratual com horizonte de médio prazo.

Conclusão: A Decisão Não É Migrar ou Não Migrar — É Como Migrar

O 1T26 fechou a era das migrações fáceis e abriu a era das migrações estruturadas. O cenário consolidado tem três vetores que devem orientar qualquer decisão estratégica de contratação nos próximos 18 meses:

  • Volatilidade do PLD deve permanecer elevada enquanto o nível dos reservatórios do Sul não se recompor. PPAs de médio prazo com sazonalização adequada continuam sendo a forma mais eficiente de proteção.
  • Reajustes tarifários continuarão pressionando o custo do consumidor cativo, com piso anual provável entre 8% e 12% para o setor de alta tensão.
  • Cronograma da Lei 15.269 amplia a base potencial de consumidores migráveis em ritmo previsível, o que pressiona o setor de comercialização a oferecer produtos cada vez mais sofisticados — e abre vantagem para quem migra antes da onda residencial.

A janela de “energia barata por migração” se fechou. A nova janela — a de “energia previsível por contratação estruturada” — está aberta e exige decisões que vão além do desconto inicial: exigem desenho de portfólio, gestão de risco e leitura do cenário regulatório.

Fontes e Referências

Análise produzida pela equipe técnica da Partner Energy. Os dados refletem o consolidado até 11 de maio de 2026 e podem ser atualizados conforme novas publicações das fontes oficiais.

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